Após a terceira década


O primeiro amor, a graduação, a segunda decepção, o mestrado. Na terceira década, os minutos começam a ser contados de outra forma. Como se já não houvesse tempo para correr atrás dos ponteiros de relógios alheios. Como se os ouvidos não pudessem se prestar caladamente para consentir ideias emprestadas. Como se tudo começasse a se tratar de prioridades: sujeitos, objetivos, afetos, todos organizados na medida em que cabem no limiar da sua alma. Nada menos.

Há um par ou mais de amigos que, sem dúvida, serão os de uma vida inteira. Eles te dão o sorriso cúmplice que conhece segredos da infância e que os fará rir ano após ano. A eles você conta também sobre os passageiros que encontrou no caminho mas que não acompanharam o trajeto porque você não se detém nos vagões sem sentido.

Na terceira década, já não existe o medo de se molhar sob a chuva e então não faz mal esquecer o guarda-chuva. Assim, a palavra risco adquire significado, quando percebe que se molhar sem querer é a sorte de quem tira proveito, querendo.

Você deixa de se preocupar pelo que o mundo te dará no dia de amanhã e começa a pensar seriamente na herança que deixará, porque na maioria das vezes “não posso” é na verdade não querer fazer o esforço de quem aposta em ser autor de seus parágrafos.

Na terceira década, alguns já deram o “sim, aceito” e outros recentemente se separaram. O arranjo de flores foi parar na sua mão e você foi a próxima. Mas sabe que na realidade “ser felizes para sempre” é a decisão mútua de escrever um capítulo de amor por dia. Só assim o livro permanecerá aberto.

Na terceira década, dizer “não” já não é pecado, e assim pode se retirar com elegância de qualquer lugar onde sua presença já não é requerida. Desvia seus passos de qualquer calçada que abata sua integridade e deixa que seu espírito diga aonde ir, vestindo genuinamente teus próprios sapatos. E sabe que ali onde estiver será sua casa. Pois, mesmo longe dela, você sozinho é uma nação e carregará seu nome onde quer que vá, todos os dias da sua vida.


São Paulo, Agosto 2016.

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